Opinião - De K-Pop Demon Hunters até a CPI dos Pancadões

K-Pop Demon Hunters
Industrialização da Arte
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O que tem de bom?

Esse fim de semana eu e minha esposa assistimos "K-Pop Demon Hunters", o que obviamente nos levou a uma conversa sobre política...

Começamos destacando os pontos positivos e negativos do filme, boa animação, boas músicas (isso não foi um concesso), bom personagens e a infelicidade da trama mau amarrada e o potencial desperdiçado, claro que não somos exatamente o público alvo, mas eu sou um homem próximo dos meus 25 anos que joga Minecraft, então isso não quer dizer muito, muitas das vezes.

Industrialização da arte

Ao passo que a conversa avançava, a conversa foi ficando mais interessante e começamos a falar de música. Por mais que eu seja uma pessoa bastante interessada em arte como um todo, minha área de especialidade são artes mais visuais, como design e desenho, então muitas das coisas que dizem respeito a criar boas músicas fogem do meu conhecimento, mas uma coisa é fato, com o passar dos anos eu desenvolvi uma certa aversão a "músicas industrializadas", o que é claro, descreve com perfeição a maior parte dos grupos de K-pop.

O mais novo é o mais fofo, o mais velho é o líder, tem o rapper e o gostoso, e por mais que varie um pouco, a estrutura geral é essa e geralmente tem um apego meio exagerado em criar "músicas chiclete", claro que arte por arte não quer dizer nada nem paga as contas, mas as ter como objetivo final a monetização ou a maior aceitação do público pode criar obras muito vazias.

Um paralelo que cruza o oceano

Isso não é exclusivo do K-Pop, é claro. Aqui no Brasil temos o fenômeno estrondoso do sertanejo patrocinado pelo agro, ou "Agronejo". Que se tornou o mesmo movimento vazio depois que o sertanejo passou por um processo de elitização. Outro exemplo, que ganhou relevância recentemente com o Chavoso da USP na CPI dos Pancadões é a questão dos baile funks, aqui eu quero falar especificamente dos funks ostentação de SP, pra ser sincero, nunca foi o meu tipo de música, por uma questão de puro gosto pessoal, mas o funk ostentação tem uma origem bastante enraizada nas periferias de SP e passou por um processo de embranquecimento e elitização muito grande, se tornando o exemplo perfeito do mesmo movimento vazio, talvez um embrião do que a elite fez com o Sertanejo.

Se você quer entender como isso não é loucura, ou teoria da conspiração, da uma olhadinha no meu artigo sobre Revoluções Coloridas e veja como a elite pode manipular um movimento legitimo para atingir seus interesses.

Política e música

Enfim, a conversa foi avançando e continuamos falando sobre a musicalidade brasileira e de como o nosso cenário musical atual é mais complexo do que parece. Muitos músicos atuais são reduzidos a falsas contra partidas do passado, como o cantor Jão, que é o novo Cazuza, a Luiza Sonza, que por algum motivo é a nova Rita Lee, ou a Marina Sena que é a nova Maria Bethânia, ou sei lá...

Em algum momento eu cheguei a conclusão que eu não gostaria de dar o nome de outra pessoa para o meu filho, porque eu acho que um nome traz consigo, um peso e uma história e carregar esse peso e essa expectativa pode ser problemático, trazendo a tona comparações injustas, ou frustrações de todas as partes e eu acredito que comparar a nova geração dos nossos  músicos com a anterior cai no mesmo vale perigoso.

Vamos pegar o Jão como exemplo, ele é muito comparado ao Cazuza por ser um homem de bissexual assumido e com a sexualidade aflorada, expondo isso em suas musicas, mas as semelhanças acabam aí, na minha opinião. Cazuza era um ícone LGBT nos anos da ditadura, um contexto bastante diferente dos nossos dias e por ser bastante politizado era nítido em músicas como "Ideologia", "Brasil" e "Pro dia nascer feliz" seu posicionamento. E ele não foi o único, outros cantores como Caetano Veloso, Rita Lee, Djavan, entre outros, foram igualmente fodas, entretanto, não é desse ativismo que precisamos hoje.

Alienação política

Imagem por: Pilar Olivares/Reuters

Durante as manifestações contra a PEC da Bandidagem vimos os nossos antigos ativistas musicais voltando a tona e dando uma aula de posicionamento e ativismo, mostrando que a nossa raiva e indignação pode e deve ser mostrada através da arte. No meu ultimo post sobre Star Wars Jedi: Fallen Order - que definitivamente não é o meu melhor post - eu comecei a escrever com o seguinte paragrafo:

Eu acabei de terminar Star Wars Jedi: Fallen Order - e sim, eu vou politizar um joguinho, porque eu sinceramente não sei quando tudo ficou tão "despolitizado". Tudo tem um viés, tudo tem política, ou você acha que só obras como 1984 de George Orwell, ou A Metamorfose de Kafka, tem peso político? O ponto é que tudo sempre teve política envolvida desde essas obras que eu citei, até a cultura POP como X-Men e o preconceito, ou Capitão América batendo em nazistas.

Com esse parágrafo, eu queria dizer que tudo sempre teve e sempre terá viés político e eu complemento aqui. Até a decisão de ser apolítico é, contida em si mesma uma decisão política.

Enfim, esse post está ficando meio grande. Eu genuinamente espero ter mais oportunidades pra falar sobre arte e política porque é um assunto muito caro pra mim, obrigada pela atenção e até a próxima!

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